“Viver a Vida” não decepcionou em seu último capítulo: os problemas exibidos ao longo dos últimos meses se repetiram, com diferentes graus de intensidade, na despedida da novela.
É compreensível, e até elogiável, ver a preocupação de alguns autores da Globo com o chamado “merchandising social” – a inserção de campanhas educativas e mensagens positivas nas novelas com o objetivo de transmitir informação e ajudar uma população majoritariamente desinformada e desassistida.
Mas Manoel Carlos, comovido talvez com a própria proposta ou imbuído de um espírito missionário, perdeu a mão desta vez. “Viver a Vida” deixou de lado os elementos básicos do folhetim para se tornar uma cartilha maçante, destinada a educar a sociedade – governos, escolas e pais – a respeito das necessidades das pessoas portadoras de deficiências físicas. O que poderia ter sido um elemento dramático interessante se transformou numa imposição deslocada – como as aulas de Moral e Cívica que os estudantes nos anos 70 eram obrigados a engolir na escola.
Novelas costumam mudar de rumo ao longo do caminho. O vilão virar mocinho, a heroína se transformar em bruxa, o coadjuvante ganhar proeminência, o protagonista morrer porque fracassou... É natural que oscilações deste tipo ocorram num projeto dramatúrgico de longuíssima duração. Mas “Viver a Vida” passou quase totalmente ao largo de altos e baixos deste tipo.
É verdade que Helena (Tais Araujo) surgiu como protagonista e foi minguando, minguando, até se tornar absolutamente desimportante no enredo. E que Soraia (Nanda Costa) nasceu coadjuvante e, se a novela durasse mais dois meses, acabaria virando a personagem principal. Mas foram exceções. A novela foi construída num registro tão morno em todos os seus núcleos, ao longo de todo o tempo, que é difícil mencionar destaques ou fracassos, surpresas ou decepções.
Durante as quase duas horas do último capítulo não houve clímax. Luciana (Aline Moraes) notou que estava grávida na hora do almoço, Helena descobriu a mesma coisa na cama, no meio da noite, e Dora (Giovanna Antonelli) soube que Marcos (José Mayer) não era pai de seu filho. Um bloco depois, houve um casamento duplo, Luciana teve gêmeos, os irmãos Jorge e Miguel (Mateus Solano) acabaram reconciliados e a mãe deles (Natalia do Valle) voltou a sorrir depois de ver os netos na maternidade.
Criticar é fácil, dirão alguns leitores; difícil é fazer. É verdade. Mas o espectador tem o direito de esperar mais diversão de um autor que escreve uma novela a cada três anos. “Viver a Vida” se arrastou economizando em matéria de drama, vilões, conflitos, ação e, até mesmo, desempenhos artísticos notáveis (exceção feita a Natalia do Valle, Lilia Cabral e Nanda Costa). Não se pode esquecer que a responsabilidade pela falta de imaginação se estende, naturalmente, à direção nada inspirada de Jayme Monjardim, para não falar da trilha sonora mais óbvia dos últimos tempos e da fotografia que abusou dos clichês em todos os capítulos.
Por Mauricio Stycer

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