sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Silvio de Abreu comenta o melhor e o pior de "Passione"


Em entrevista exclusiva, o autor Silvio de Abreu faz uma avaliação da novela da Globo. Ele admite que errou na personagem Diana, interpretada por Carolina Dieckmann. E avisa que o público deverá se surpreender com as últimas cenas.

Qual é a avaliação que o sr. faz de Passione, agora que ela está em sua última semana?
Passione segunda-feira deu 54 pontos de audiência com um "share" de 74%. É uma marca que a Globo não conseguia desde setembro de 2009, no último capítulo de Caminho das Índias, e ainda temos mais quatro capítulos pela frente. Ou seja, estou respondendo ao seu blog com uma enorme sensação de sucesso. Para mim, a novela cumpriu todos os objetivos a que se propôs: disse que iria fazer uma novela que seria um misto de melodrama, comédia e policial, e fiz. Escalamos um elenco de estrelas e todos tiveram os seus momentos de brilho e reconhecimento dentro da trama. Me propus a tocar em assuntos polêmicos para a nossa sociedade, como a exploração sexual infantil, aborto clandestino, uso do crack, pedofilia, e consegui, sem causar nenhum desconforto ao telespectador. Por fim, o mais importante, queria fazer um grande entretenimento que mexesse na emoção e na razão do público, e isso também foi conseguido plenamente. Não queria o telespectador passivo diante da TV e não tive. O que poderia ser melhor?

Na sua opinião, o que (ou quem) foi o melhor da novela?
O envolvimento crescente do público com críticas e ideias com relação às tramas foi o que mais me deu prazer. Gosto de deixar o telespectador inquieto, aguçado, pensando em soluções, fazendo a novela em sua cabeça enquanto eu faço na minha. Muitas vezes ele se decepciona, critica, se revolta, mas é um risco que vale a pena correr em favor da discussão que se provoca.

E quais foram os melhores e os piores momentos da produção?
O melhor é agora. Já acabei de escrever, amanhã [ontem, quarta] acabam de gravar, está todo mundo feliz e o sucesso é garantido. O pior [momento] foi o acidente que Cleyde Yáconis sofreu, porque é uma pessoa muito querida por todos nós e, além da preocupação que tivemos com ela, tínhamos também com o destino da Brígida. Foram dois meses muito tensos, nos quais os personagens de Aracy Balabanian, Leonardo Villar, Elias Gleiser e Emiliano Queiróz ficaram meio de lado. Mas, felizmente, Cleyde é uma guerreira, se recuperou e voltou melhor ainda do que antes do acidente.

O sr. se arrepende de alguma coisa, alguma cena ou personagem? O que mudaria em Passione?
Acho que errei no personagem Diana. Queria fazer uma heroína moderna, que tivesse suas escolhas e tomasse  seu destino nas próprias mãos. A primeira escolha que ela fez, no segundo capítulo da novela, trocando o Mauro [Rodrigo Lombardi] pelo Gerson [Marcello Antony], acarretou uma enorme antipatia do público sobre ela, que eu não consegui amenizar. Daí para a frente, tudo o que ela fazia, para o bem ou para o mal, passou a ser ignorado, como se ela não merecesse perdão e não fosse uma pessoa confiável. Acho que a mocinha passiva, que fica no alto da torre esperando pelo seu príncipe encantado, está definitivamente enterrada, mas ainda não sei qual tipo de heroína romântica o público está querendo ver.

A morte de Diana subverteu a lógica do folhetim. A morte estava mesmo prevista na sinopse? Ou o sr. resolveu matá-la porque o público poderia aceitar bem, uma vez que muita gente rejeitava a personagem/atriz?
A morte estava prevista na sinopse porque eu queria fazer uma trágica história de amor, sem final feliz, a exemplo de Romeu e Julieta ou de Love Story - Uma História de Amor. Infelizmente, por motivos que já expliquei, não consegui fazer com que o casal Mauro e Diana encantasse o público como eu pretendia. Não acho que tenha sido culpa de Rodrigo Lombardi e Carolina Dieckmann. A culpa foi minha, na condução dos personagens, nas atitudes que atribuí principalmente a ela. Curiosamente, o público se encantou com a sua morte e passou a lamentar depois do ocorrido, com isso consegui em parte o meu objetivo, mas já era tarde para o impacto que eu havia planejado.

Se o sr. pudesse subverter mais regras do folhetim, o que faria diferente em Passione?
Eu posso subverter sempre, mas trabalho com a minha intuição. Não planejo nada com antecedência. Imagino o início da história e vou tecendo a minha teia. Não gosto de seguir regras e nem estatísticas. Gosto de trabalhar livremente, e assim vão surgindo as subversões.

É mais difícil escrever uma novela com trama policial hoje do que  há 15 anos, quando realizou A Próxima Vítima? Por quê?
Não vi muita diferença. Usei em Passione os mesmos métodos que inventei para A Próxima Vítima e conseguimos manter os segredos que nos interessavam.

O público pode esperar surpresas no último capítulo de Passione?  De que tipo? É possível um final em que os bandidos se dão bem?
Claro que pode. O último capítulo de Passione está repleto de revelações. E com relação ao destino dos bandidos, como eu já disse, não gosto de seguir regras e nem acredito, aliás abomino, no politicamente correto.

Qual foi o pior de Passione?
Não quero parecer antipático, porque não sou contra a imprensa nem contra os críticos, mas o que foi escrito sobre a novela, de uma maneira geral, ficou muito aquém do que o produto merecia. Passione sempre foi criticada num ponto de vista óbvio e trivial. Começou com a implicância com o sotaque dos personagens italianos, que receberam elogios até no jornal La Repubblica, o mais conceituado de Milão. Quer dizer: para os próprios italianos estava certo, mas para os ditos "especialistas" do Brasil estava errado. Em quem acreditar? Com o tempo perceberam o erro e mudaram de ideia, e aí passaram a dizer que nós tínhamos diminuído o sotaque, mas eu desafio qualquer um a assistir ao primeiro capítulo da novela. Constatará que não houve nenhuma modificação, nem de sotaque nem de número de cenas no decorrer de toda a novela. Criticaram o que foi chamado de falta de coerência nos personagens, sem atinar que eles simplesmente não eram maniqueístas e que todos tinham dois lados, diferentemente de outras novelas em que mocinho é mocinho e bandido é bandido. Acharam que foi um absurdo a Clara [Mariana Ximenes] ter "mudado de personalidade" e depois "voltado a ser má", sem perceber que tudo foi um jogo de espelhos e que ela nunca deixou de ser ela mesma. Enfim, foi muito decepcionante constatar que existem profissionais sem preparo, opinando e escrevendo sobre o que não entendem.

Parte da crítica reagiu muito mal ao segredo de Gerson. O crítico do UOL disse que era o caso de o telespectador procurar o Procon. O jornal O Globo o classificou de "o mico do ano". O que aconteceu? A crítica não entendeu que uma pessoa pode, sim, ter sérios problemas por gostar e ao mesmo tempo rejeitar a pornografia? O sr. faz alguma autocrítica nesse episódio?
Com relação aos críticos, eu já disse o que penso. É óbvio que o público iria ficar curioso para querer desvendar o segredo sexual de um personagem interpretado por um galã carismático como o Marcello Antony. Só não imaginei que esse segredo do Gerson tomasse as proporções que tomou. A rigor, dentro da trama de Passione, isso não era nada importante, não iria modificar nada, era de caráter particular do personagem. Mas tanto se falou, tanto se especulou, que virou um elefante branco. Se eu tivesse embarcado nas expectativas do público e da imprensa, teria feito alguma coisa mirabolante, o que nem seria muito difícil de inventar, mas iria perder a coerência do meu personagem. Preferi não fazer isso. Com o trabalho concluído, tenho plena, total e absoluta certeza de que agi certo me mantendo na minha trilha.

Parte da crítica também achou muito "óbvia" a ideia do anagrama Otabol, e o ressurgimento de Totó (Tony Ramos) um replay de Belíssima. É impossível um autor se reinventar/inovar sempre?
A obviedade de Otabol foi prevista. Gosto quando um ruído na trama perturba o telespectador, faz com que ele se sinta mais inteligente e bem informado do que os personagens da novela. Isso o incomoda cada vez mais à medida que não se revela para os personagens o que ele já está cansado de saber. É uma maneira de mexer com o público, de atiçá-lo. Fiz de propósito, e se os que criticaram fossem mais espertos e melhor informados sobre a maneira como eu trabalho, teriam percebido isso. Com relação a repetir o personagem que se faz passar por morto, não tenho problemas. Assumo as repetições que faço sem o menor constrangimento e, se muitas vezes repito personagens inteiros como a Dona Armênia e o Jamanta, porque não posso repetir tramas? Aliás, em Belíssima também não fui original nesse aspecto. Em A Próxima Vítima já tinha usado a mesma ideia com o personagem de Francesca Ferreto (Tereza Raquel).

O sr. mudou alguma coisa na novela porque a imprensa descobriu e revelou?
Não, não mudei nada.

Qual foi a sua reação quando as pesquisas feitas pela Globo  mostraram que o público não estava digerindo bem o ritmo acelerado da novela? O sr. reduziu mesmo o ritmo? Era seu plano manter o ritmo "alucinado" até o final? Como? Teria mais história para contar?
Na época eu disse em entrevistas que iria diminuir o ritmo, mas não o fiz. Quem acompanhou a novela diariamente pode constatar isso. Hoje as novelas não fazem mais sucesso instantâneo como antigamente. Cada uma tem que procurar o seu público e é um enorme exercício de paciência e confiança. A Rede Globo sabe disso e me apoiou em minha decisão de tocar para frente da maneira como eu havia imaginado, e assim foi feito.

Em 2005, Belíssima terminou com mais de 50 pontos de média no Ibope da Grande São Paulo. Hoje, a novela das oito está no patamar dos 35, embora seja disparadamente líder em seu horário e, na reta final, ultrapasse os 50. O que mudou tanto nos últimos cinco anos?
Não sei o suficiente para responder a esta pergunta como deveria. Existem várias teorias e a que me parece mais plausível é a de que o público assiste à novela em outros horários, pela internet ou gravado. Não sei se é verdade, mas sei que o site da novela já tem mais de 2 milhões de visitas diárias. Com relação à repercussão da novela em todos os meios sociais e de comunicação, não vi diferença entre Belíssima com seus 50 pontos e Passione com seus, até agora, 35.

Fonte: Daniel Castro

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